Monteiro Lobato defendia, em suas obras, a preservação da natureza e a não exploração dos animais

No mês em que se comemoram os 128 anos de um dos maiores escritores brasileiros, Monteiro Lobato, convém ressaltar uma faceta de seu trabalho, tão importante nos dias atuais, que é a preservação da natureza. Mais do que um grande escritor de histórias infantis, Lobato, atento às principais questões de seu tempo, foi um articulista ousado e perspicaz, engajando-se em diversas campanhas. Uma delas foi a defesa do meio ambiente, dentro do que era possível no discurso de sua época.

Lobato não se limitava a explorar os problemas das florestas e da destruição dos habitats.

Em “Homo Sapiens”, um dos ensaios de A onda verde, num estilo panfletário e irônico, Lobato condena o homem pela pesca com armadilhas, as arapucas, mundéus, ratoeiras, o aprisionamento de pássaros em gaiolas, as carroças e arreios com que os cavalos eram presos, a caça das baleias e aos outros animais a tiros, os incêndios dos campos e matas, a drenagem dos pântanos, enfim, por todo o mal causado aos animais. O homem, movido pela ganância, torna-se “lobo de si próprio”, numa referência hobbesiana, pois suas ações contra a natureza acabam vitimando a si mesmo. A solução de Lobato é conclamar uma revolução dos bichos (muito antes de George Orwell, mas em outro sentido, é claro): “animais todos da Terra, basta de submissão! Uni-vos!”. Um governo dos animais seria “infinitamente mais gentil que a dura realeza humana”, inclusive porque daria maior atenção às crianças, a quem Lobato chama de “pequeninas vítimas”. Por perceber o descaso com as crianças em sua época, o escritor dedicou-se a elaborar estórias em que elas têm direito a manifestar suas emoções, sentimentos, e dar vazão a toda fantasia que habita o imaginário infantil.

Também na literatura dedicada a elas, Lobato insere elementos de sua preocupação ambiental. Em uma passagem de A chave do tamanho reaparece a metáfora do governo dos bichos, aliado a uma reflexão sobre a própria humanidade. Na voz de Emília, Lobato compara a Terra a uma pulguinha na imensidão do Universo; o homem, nesta pulguinha “é uma poeirinha malvada”. Se a humanidade acabasse, os animais ficariam muito contentes, porque o “Homo sapiens era o que mais atrapalhava a vida natural dos bichos”, ideia transmitida por intermédio do Visconde de Sabugosa.

Em Memórias da Emília, livro em que a boneca resolve escrever “as histórias de sua vida”, há uma passagem interessante, na qual explica para o anjinho de asa quebrada (personagem de Viagem ao céu) “as coisas da terra”. Emília esclarece que árvore é “uma pessoa que não fala; que vive sempre de pé no mesmo ponto”, e que só sai do lugar quando surge o machado, “o mudador das árvores”, que muda até o nome delas, pois, quando ele passa perto, as árvores viram lenha; é um “diabo malvadíssimo”. Por meio de Emília, Lobato critica também o uso de animais como cobaias em experimentos científicos.

Os textos aqui mencionados mostram as preocupações de um escritor sintonizado com os problemas de seu tempo. Já havia poluição e destruição da natureza na época em que Lobato viveu; elam se intensificaram ao longo do século pelo desenvolvimento sem controle da indústria poluente e pelos estímulos ao consumo desenfreado, até chegar aos níveis que somos obrigados a suportar hoje. O grande mérito desses escritos de Lobato foi instigar seus contemporâneos a refletirem sobre o que estava acontecendo. Eles podem inspirar-nos na busca de soluções para os desafios de hoje, muito maiores, é claro, e que passam por uma séria mudança de conduta dos consumidores, mas também por uma revisão dos processos políticos e econômicos, na esfera global.

Com informações de O Globo

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