Lições de um caçador arrependido

           

Por Rachel Siqueira    (da Redação – EUA)

O ano está terminando e o inverno nos Estados Unidos tem início. Tamanho é o frio, que a simples ideia de sair de casa ameaça os ossos; mas o prejuízo nem sempre para no corpo gelado e frequentemente se estende ao humor e à vida social.

Yin-Yang, dizem os sábios (a critério do leitor fica a adição de aspas ao “sábios”). Em tudo de bom há algo ruim, e vice-versa, o que nos remete ao lado bom do inverno! Ceias veganas são irresistíveis, lareiras acesas são afrodisíacas, mas é ao término do outono que me refiro. Sim, o término da estação que representa a temporada de caça aqui no hemisfério Norte.

Neste outono, cerca de 200 lobos foram mortos nos estados de Montana e Idaho, mas o plano é não cessar a barbárie tão cedo. A temporada de caça em Idaho terá seu término prorrogado até o dia 31 de março de 2010, assim permitindo que caçadores alcancem a cota de extermínio de 220 lobos, aprovada pelo U.S. Fish and Wildlife Service.

O limite existe porque faz pouco tempo que os lobos da região foram retirados da lista de “espécies ameaçadas”. No Alasca, onde lobos são bem mais abundantes e não existe tal cota, caçadores em aviões e helicópteros matam mais de mil lobos por temporada. O que nos remetiria a Sarah Palin, mas já temos desgosto o suficiente com o que lidar, desnecessário extrapolarmos.

Alguns desses caçadores podem vir a se arrepender da matança de lobos se seguirem o exemplo de Aldo Leopold.

Há cem anos, Leopold, célebre ecologista e ambientalista, hoje tido como “o pai da vida selvagem”, liderou a mais famosa caça a lobos na história dos Estados Unidos. Ávido caçador, ironicamente pela “vida” selvagem.

Aos 22 anos de idade, logo após graduar-se pela Yale’s School of Forestry, Leopold começou a trabalhar como silvicultor. Numa tarde de outono, depois do almoço, junto à sua equipe de agrimensores, abriu fogo sobre uma velha mãe loba e seus seis filhotes adolescentes, no sopé de uma montanha.

“Naquela época, nunca tínhamos ouvido falar em deixar passar alguma chance de matar um lobo”, Leopold disse mais tarde. “Eu pensei que, já que quanto menos lobos, mais veados teríamos, a extinção de lobos significaria o paraíso aos caçadores”. Mas, depois de ver o “fogo verde feroz” nos olhos do lobo morrer, ele escreveu: “Percebi que nem o lobo ou a montanha concordaram com esse ponto de vista”.

Pelos próximos 20 anos, Leopold continuou a defender o extermínio de lobos e, ao fazê-lo, estava em acordo com a longa tradição americana.

Na década de 1930, Leopold pôde ver que a erradicação dos lobos não levara caçadores ao paraíso, e sim ao paraíso perdido: a rápida expansão dos rebanhos de alces e veados, seguida pelo sobrepastoreio da vida vegetal e erosão, culminando em fome e colapso da população.

Enfim um motivo para questionar a, até então bem-vinda, extirpação de lobos. Basta a qualidade de vida do animal humano ser colocada em jogo que “verdades” e procedimentos serão reavaliados.

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