Gatos emitem ronronado específico para pedir comida

           

Uma pesquisadora da Universidade de Sussex, Reino Unido, descobriu uma nova maneira pela qual os gatos se comunicam com seus tutores. Karen McComb pesquisa a comunicação entre animais. Em geral, vai atrás dos bem grandões, como elefantes e leões africanos. Ela descobriu um “grito” por comida embutido em um ronronado de gatos domésticos.

Pepo, o gato que inspirou a pesquisadora Karen McComb, da Universidade de Sussex, a estudar a comunicação entre os animais (Imagem: Reprodução/Folha Online)
Pepo, o gato que inspirou a pesquisadora Karen McComb, da Universidade de Sussex, a estudar a comunicação entre os animais (Imagem: Reprodução/Folha Online)

Karen e mais três colegas publicaram um artigo científico sobre o “ronronado da fome” em uma edição recente da revista científica Current Biology. “Meu próprio gato inspirou o estudo”, disse ela à revista. Pepo é o único gato da casa, e aparentemente o miado manipulador só acontece quando há apenas um animal pedindo atenção do tutor.

“Fiquei interessada nisso porque meu gato me acordava de manhã com ronronados insistentes. Eu ficava imaginando porque soava tão irritante e era tão difícil de ignorar”, afirma. Ao falar com outros donos de gato, ela descobriu que alguns deles tinham animais que mostravam um comportamento incrivelmente semelhante.

“Como eu sou uma acadêmica que na verdade trabalha com comunicação vocal e capacidades cognitivas em mamíferos, eu tinha o conhecimento, as ferramentas e os colaboradores para lidar com essa questão”, declara Karen.

Apesar de estudar bichos perigosos, como leões na savana africana, ela diz que trabalhar com o animal conhecido desde 1758 pelo nome científico Felis catus foi um dos seus maiores desafios. Gatos não costumam ser muito obedientes. “Um grande problema foi que eles só exibiam esse comportamento na privacidade com seus donos, e tipicamente em horários antissociais”, diz Karen. “Também tendem a ficar mudos ou a sair quando estranhos aparecem”.

Karen e mais três colegas publicaram um artigo científico sobre o "ronronado da fome" na revista científica "Current Biology" (Imagem: Reprodução/Folha de São Paulo)
Karen e mais três colegas publicaram um artigo científico sobre o "ronronado da fome" na revista científica Current Biology (Imagem: Reprodução/Folha de São Paulo)

Ela conseguiu gravar ronronados do seu pet, e outra autora do estudo, Anna Taylor, gravou o dela. “Nós escolhemos gatos cujos tutores nos disseram que usavam esse comportamento. Havia cinco machos e cinco fêmeas de idades bem variadas”, relata. Os tutores dos gatos foram ensinados a gravar os miados de seus bichos de estimação em momentos em que pediam comida e em outros em que simplesmente ronronavam pelo prazer de ronronar.

As gravações foram tocadas para várias pessoas. Mesmo quem não tinha gato considerava o “ronronado famélico” mais urgente e menos agradável.

Alta frequência

Ao estudar a estrutura do som, a equipe descobriu um elemento de alta frequência sonora embutido no ronronado, lembrando um grito ou um miado. Ao ressintetizar o som eliminando a alta frequência, os ronronados voltaram a soar agradáveis. “A inclusão deste elemento de alta frequência poderia servir como um meio sutil de exploração, aproveitando uma sensibilidade que humanos e outros mamíferos têm de dar dicas relevantes no contexto de cuidar da prole”, afirma Karen.

O ronronado pela manhã é mais aceitável do que um miado escancarado, “que faria o gato ser ejetado para fora do quarto”.

Mas, quando o gato tem concorrência de outros, ganha comida quem mia mais. Quem tem vários conhece bem o comportamento. “Se pedem comida às vezes? Não, sempre pedem! De manhã, umas 6h30 da matina, é o horário em que eles ficam loucos de fome”, diz Ana Carolina Angeli Polete, que, com seu marido, Cesar, se reveza na alimentação dos bichos, ela no turno da manhã. “Eu levanto religiosamente todos os dias para alimentá-los. Caso contrário, não durmo. Se me rebelo e não acordo, eles praticamente zoneiam a casa inteira”, diz Carolina.

Os gatos Kirk e Spock ajudaram seus donos, Libânia e Rubens Baptista Júnior, a interpretar seus vários tipos de miados (Libânia Paes/Arquivo Pessoal)
Os gatos Kirk e Spock ajudaram seus donos, Libânia e Rubens Baptista Júnior, a interpretar seus vários tipos de miados (Libânia Paes/Arquivo Pessoal)

Uma das gatas, Picorrucha, “tem a capacidade de subir na pia, olhar pra nossa cara e miar brava porque quer comida”, conta. A pesquisadora explica: “Existem outras estratégias para pedir comida, incluindo miar. Os gatos vão optar por aquilo que funciona melhor”.

Lúcia Helena de Camargo e seu marido, Cezar, convivem com apenas um gato, Pablo. É um bom candidato ao “ronronado da fome”. “Ele não mia para pedir comida”, diz Lúcia.

A estratégia é outra. “Chego em casa, ele vem na porta, chega perto, se roça um pouco nas minhas pernas, depois deita no chão de barriga para cima, para eu acariciá-la. Fica nessa alguns minutos. Quando está com fome, levanta rapidamente e se encaminha para a praça de alimentação, parando em frente ao prato da ração de que gosta mais”. Rubens Baptista Júnior e sua mulher, Libânia, convivem com três gatos. “A convivência com eles me ensinou a interpretar seus diversos tipos de miado. Esse é diferente quando querem comida, carinho – basicamente escovação –, ou quando avistam um bichinho”, afirma Rubens.

Ele passou a reconhecer os miados pelo fato de trabalhar em casa; ela, funcionária de uma multinacional, nem tanto. “Enquanto eu passava o dia com os gatos, ela ficava fora o tempo todo. À semelhança da mãe que entende os vários choros do bebê, enquanto o marido não percebe nada, eu fazia o papel da mulher”, diz Rubens.

Faz sentido. Segundo os pesquisadores da Universidade de Sussex, o pico de frequência medido no estudo é comparável ao de um bebê humano saudável, entre 300 e 600 hertz.

Onde ouvir

Os dois tipos ronronado doa gatos Pepo e Hippolythe e um vídeo do “ronronado da fome” de Pepo estão aqui.

Fonte: Folha Online

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