A metáfora do atavismo e a exploração animal

           

Evolução, na biologia, significa a mudança qualitativa pela qual as espécies vivas se transformam ao longo do tempo, dando origem a outras espécies. Segundo a teoria darwinista, a evolução se dá pela seleção natural, o que significa que mudanças genéticas aleatórias modificam as características dos seres vivos; a interação com o meio ambiente, em que determinadas características favorecem a sobrevivência de seus portadores, leva a que tal mudança genética seja perpetuada nas gerações futuras, até que os “menos aptos” se extingam. No entanto, discute-se se o ser humano, por sua capacidade altamente desenvolvida de interferir e transformar a natureza, não poderia também interferir na própria evolução. Nesse caso, poderíamos falar numa evolução social que interferiria na evolução natural ou biológica.

Se a inteligência e habilidade criadora superdesenvolvida dos seres humanos pode ser fator decisivo para a sua transformação social, pode também ser fator da permanência ou regressão a um estado de coisas historicamente superado ou supérfluo. Isso é compreensível pois, como uma vez disse o historiador francês Fernand Braudel, a estrutura que mais tempo leva para mudar é mentalidade humana. Este é o caso, na minha opinião, da exploração animal: uma característica ancestral que perdeu sua relevância e se tornou um entrave ao desenvolvimento (social, político, biológico, ético) da espécie humana.

O termo científico para a regressão evolucionária é atavismo. Por atavismo entende-se o retorno de uma característica biológica que tenha sido extinta pela seleção natural. Seriam casos de atavismo o nascimento de baleias com patas no lugar de barbatanas (aceitando-se a hipótese de seus ancestrais serem terrestres), cobras com patas, pássaros com dentes ou indivíduos humanos com caudas. Na biologia, os genes responsáveis pelas características descartadas na seleção natural permanecem “desativados” e podem reaparecer em determinados indivíduos, por razões ainda não satisfatoriamente esclarecidas pela ciência, levando a casos (muito raros) como os acima citados.

O atavismo ainda é um conceito controverso na biologia, e de modo algum proponho que ele seja adaptado às ciências sociais, pois – e quero ressaltar esse ponto – poderia levar a novas teorias de superioridade e, portanto, projetos de supremacia como foram o colonialismo e o nazismo. Trago o tema à tona apenas como uma metáfora, em resposta às tantas vezes que ouvi de onívoros que a adoção do veganismo seja uma espécie de atavismo, que vai contra a natureza e a evolução da espécie humana, que se deu com base na caça e consumo de carne.

Em primeiro lugar, cabe contestar a própria hipótese antropológica do homem caçador. Steven Best, filósofo e ativista norte-americano, por exemplo, defende que a maioria da carne obtida por nossos ancestrais advinha da necrofagia (isto é, alimentar-se da carne de animais mortos por outros meios, como a morte natural ou abatidos por outros predadores – ou seja, tínhamos hábitos alimentares semelhantes aos dos urubus) e que a coleta, e não a caça, sempre foi a base da alimentação humana [1].

Em segundo lugar, a permanência desse hábito ancestral do ser humano de consumir carne e produtos de origem animal (o leite e seus derivados, apenas a partir da domesticação dos caprinos e, posteriormente, dos bovinos) parece, este sim, um fator de freio à evolução social humana, e não de impulso a esta. Em outras palavras, ao nos apegarmos a um estado de coisas cujos fatores históricos desapareceram (e o contexto atual torna desnecessário ou até perigoso), impedimos a nós mesmos, a humanidade, de dar um salto qualitativo em direção a um estado de coisas melhor.

Estudos antropológicos explicam a partir dessa ancestralidade, por exemplo, o velho hábito do churrasco, tão difundido em diversas sociedades, o que complementa a hipótese anterior de Best. Segundo esses estudos, a redistribuição da caça entre os humanos era um momento de congraçamento, festa, comemoração, por dois motivos básicos: a dificuldade do empreendimento e a abundância de alimento do qual ele resultava – em sociedades que conviviam permanentemente com o perigo da escassez. Tal comportamento foi descrito, inclusive, entre outras espécies de primatas que praticam a caça.

No contexto atual, entretanto, a permanência desse traço ancestral apenas tem trazido problemas de saúde e ambientais. Tornou-se absolutamente supérfluo, com a alta produtividade da agricultura e os conhecimentos avançados da ciência da nutrição. A criação intensiva de animais é altamente prejudicial à natureza, pela poluição que produz, pela pressão que exerce sobre as zonais florestais ainda existentes e, como vimos antes no caso da gripe aviária, e agora no caso da gripe suína (hipótese não comprovada), pelos perigos que ela pode trazer à saúde pública. Animais estocados e compactados como coisas, vivendo em ambiente insalubre e ar viciado formam o ambiente ideal para a propagação de doenças, conhecimento que não é de exclusividade dos infectologistas e imunologistas! Sabe-se que o inverno é a estação mais propensa à propagação de epidemias, justamente porque os seres humanos tendem a ficar mais reclusos e aglomerados nesta época, e que os ambientes fechados e de aglomerações, como escolas, são também os mais propícios para a difusão de doenças contagiosas, como gripes e meningite.

Falar em atavismo vegetariano é uma suposição altamente infundada justamente por conta da ancestralidade caçadora que os onívoros tanto exaltam (e necrófaga que ignoram, talvez por parecer bem menos heroica). É justamente essa ancestralidade que demonstra o tanto que o hábito da carne se tornou supérfluo para o ser humano com todo o desenvolvimento tecnológico, científico e ético pelo qual ele passou desde as épocas em que ainda era nômade e vivia da caça e coleta. Em outras palavras: nossas habilidades, nossos conhecimentos e nossos valores evoluíram mais rápido que nossa percepção dos animais não humanos e que nossos hábitos alimentares.

A ancestralidade não é prova de superioridade, e o abandono de práticas arraigadas não é sinal de fraqueza ou estupidez. Houve um tempo em que o homem “honrado” se batia em duelos de morte ou matava a esposa adúltera. Houve um tempo em que os seres humanos poderiam ser escravizados por serem estrangeiros, por incapacidade de pagar dívidas contraídas, por serem capturados em guerras. Houve um tempo em que as diferenças fenotípicas justificavam ideais de superioridade racial. Houve um tempo em que as mulheres não podiam votar. Antes que se alegue que essas ideias infundadas não têm relação com o caso dos direitos animais, recordemos que toda tradição tem um fundamento social, ainda que incorreto. A escravidão e o racismo resultam de um tempo em que o ser humano sentia-se próximo (e, portanto, eticamente ligado) apenas à coletividade a que estava imediatamente ligado. A submissão das mulheres deriva do patriarcado que, por sua vez, resulta do interesse masculino em ter certeza da paternidade.

Outros exemplos históricos demonstram a evolução social e moral do ser humano, isto é, o desenvolvimento crescente de princípios éticos que comandam o respeito pelos interesses básicos dos outros seres humanos. Ela se verifica, por exemplo, por meio da valorização crescente da vida humana, do respeito pelo indivíduo, da condenação da guerra e da luta por sociedades mais livres e igualitárias. A pena de morte e a tortura, embora ainda praticadas, são cada vez mais universalmente condenadas e tendem a ser abolidas; a escravidão e o sacrifício humano ritualístico foram completamente abolidos e são universalmente condenados. A guerra, até o século XIX, era tida como legítima e honrada, mesmo quando movida apenas pelo desejo de conquistar outro território, e era o serviço militar o ofício mais nobre que um homem poderia almejar. Hoje, se ainda não há consenso quanto à injustiça inerente da guerra, admite-se que ela é justa apenas em caso de defesa contra agressões externas ou contra regimes tirânicos. No caso do autoritarismo político e das desigualdades sociais, os avanços foram menores e o futuro parece menos radiante. Mas mesmo aqui tivemos avanços significativos. A estratificação social rígida, pela qual as classes superiores (nobres, proprietários de terra etc.) detinham privilégios e honrarias e os plebeus eram forçados a ceder seu trabalho e pagar impostos para sustentá-los, foi declarada imoral no Ocidente desde o fim do século XVIII e é fortemente contestada onde ainda existe (como na Índia), pois entende-se hoje que, sendo os seres humanos basicamente iguais, devem ser também iguais em direitos e deveres. Houve um tempo em que o autoritarismo político era tido como “normal” e até justo. Hoje, a tirania não é aceita pela maioria dos seres humanos como um modo justo de exercício de autoridade, e mesmo os regimes autoritários que ainda existem apoiam sua legitimidade sobre outras bases, ou sob falsas alegações de democracia.

Embora as tradições acima citadas ainda tenham resquícios ou subsistam em algumas poucas sociedades, ninguém dirá que elas são justas e corretas apenas por serem ancestrais, e é um sinal de evolução que elas sejam cada vez mais condenadas ou estejam em vias de extinção. O hábito da exploração animal, seja para fins de alimentação, seja para outros fins, como a experimentação, tornou-se igualmente desnecessário, perigoso e, principalmente, eticamente injustificável. A evolução ética e moral do ser humano passa também, portanto, pela revisão desse hábito ancestral que, malgrado o papel que desempenhou no passado, de impulso ao desenvolvimento humano (econômico, social, científico e inclusive político!), prova-se, atualmente, infundado, irracional, antissocial, antiético e destrutivo. Destrutivo não apenas para a vida animal não humana, mas também para os ecossistemas, a natureza, o próprio ser humano e, em última instância, para toda a sociedade.

[1]  O artigo original, em inglês, pode ser conferido neste endereço: http://thomaspainescorner.wordpress.com/2008/08/11/%E2%80%9Cman-the-hunter%E2%80%9D-to-homo-x-rethinking-human-nature-2/

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