Libertação em Movimento – Parte 1

           

Hoje gostaria de falar sobre outro aspecto das críticas dos defensores da exploração animal: a suposta impossibilidade de se alcançar a abolição da exploração animal, o irrealismo e o ridículo de nossos objetivos.Geralmente esse raciocínio se desdobra nos seguintes argumentos:

1. A imensa maioria das pessoas não está disposta a se tornar vegana.

2. O que nós fazemos não passa de ilusão – nunca poderemos alcançar um estágio de abolição porque simplesmente é “impossível” acabar com a exploração animal: ela está em todos os lugares.

3. Sendo impossível, inviável e utópico alcançar a abolição, o mais lógico, o mais prático e mais “coerente” (na visão deles) para os defensores dos animais seria defender medidas de bem-estar: prover conforto e saúde, administrar anestésicos, abater “humanitariamente” etc.

Daí faz-se um adendo para salientar a impressionante convergência de raciocínio entre exploradores e bem-estaristas: a linha de argumentação é praticamente idêntica. A única diferença é que os bem-estaristas substituiriam o “eternamente impossível” pelo “momentaneamente impossível” para, a partir daí, defender absolutamente os mesmos preceitos: se não há como abolir, vamos torná-la menos cruel.

Os “exemplos” da impraticabilidade do veganismo são inúmeros: a carne e outros alimentos de origem animal são essenciais e apreciados pela imensa maioria dos seres humanos; a abolição dos testes em animais impediria o avanço da ciência médica; todas as empresas testam produtos em animais e as que alegam não fazê-lo apenas estão usando de uma estratégia de marketing para atrair um determinado público; os diversos ramos da exploração animal geram renda e emprego e seu abandono resultaria numa catástrofe para a economia e o bem-estar da humanidade; animais domesticados ou mantidos em zoológicos precisam de carne de outros animais abatidos para sobreviver. Conclusão: libertação animal não passa de um delírio de mentes adolescentes, mimadas, rebeldes e doentias.

Daí, claro, podemos passar à realidade dos fatos.

Em primeiro lugar, como bem sabemos, certo está que muitos aspectos da exploração animal são difíceis, senão impossíveis, de evitar no mundo contemporâneo. É preciso, porém, uma boa dose de ignorância histórica para assumir que necessariamente será assim para sempre e outra boa dose de cinismo para supor que a impossibilidade da plenitude neutraliza e desmerece a importância de fazer o máximo possível. A humanidade, suas sociedades, suas tradições, estão em permanente transformação, e uma após a outra as pretensões de imutabilidade se fizeram em pó, a despeito da arrogância dos portadores de diversos impérios, regimes, práticas e ideologias que se supunham eternos. Os veganos contemporâneos são, neste sentido, desbravadores, abrindo caminhos, mostrando novas formas de ver e fazer, certamente incompletos no contexto geral, mas em progresso constante – e eu diria, inclusive, rápido – para viabilizar que, no espaço de algumas gerações, o estilo de vida 100% vegano seja uma realidade ao alcance de boa parte da população humana, ao menos aquela com acesso à educação e informação, e com razoável controle sobre seus meios de vida – seja no espaço urbano, seja no espaço rural. Vejam bem, eu disse “ao alcance”, não disse que todas as pessoas nessas condições serão veganas – quando chegarmos no hipotético estágio de universalização do veganismo entre esse grupo social, certamente estaremos em condições de dar um passo adiante para a eliminação total da exploração animal. Abolição a qual, para dissipar quaisquer dúvidas, sempre afirmo que precisa ocorrer de forma não violenta, pois de qualquer outra forma será eticamente condenável e incoerente com nossos propósitos e nossa filosofia.

Podemos fazer uma refutação ponto a ponto.

A carne e outros alimentos de origem animal NÃO são essenciais, para nenhum ser humano e em nenhuma fase da vida, como diversos estudos já demonstram.

A abolição dos testes em animais não só não impediria o progresso da ciência, como o estimularia, como qualquer desafio que se interpõe ao espírito criativo e inquisidor do ser humano; além do mais, são grandes as objeções de caráter estritamente científico à vivissecção, contando a luta antivivissecionista com o respaldo de um número ainda restrito, mas respeitável de cientistas. Podemos citar existência de uma entidade científica que se dedica a combater o uso de animais pela ciência, a Liga Internacional dos Médicos pela Abolição da Vivivesseção (Limav):

www.limav.org

Os testes em animais na indústria JÁ ESTÃO EM FASE DE ABOLIÇÃO e é apenas uma questão de tempo até que sejam totalmente abandonados, quiçá sem mesmo sequer dependermos de legislação para tanto; da mesma forma que a ciência, a economia humana apenas tem a ganhar com a abolição de uma prática ineficiente, concentradora de renda e poluente; o ser humano, inteligente e adaptável como é, certamente encontrará formas de viabilizar-se e reinventar-se; da mesma forma que a tecnologia, a abolição da exploração animal pode tornar-se uma oportunidade para impulsionar uma nova abordagem das relações socioeconômicas e – também da mesma forma que a tecnologia – só não o fará se as próprias relações humanas mantiverem-se assimétricas, desiguais, iníquas e injustas.

No caso dos animais domesticados ou mantidos em zoológicos, a ciência da nutrição já avançou bastante, e certamente dispomos, hoje, de conhecimento, tecnologia e recursos para desenvolver rações veganas; isso apenas ainda não é feito porque a mentalidade dominante não se questiona sobre as implicações éticas da alimentação de animais domésticos – afinal, eles mal se questionam sobre as implicações éticas da própria alimentação e do próprio estatuto de “animal doméstico”, fatores que NECESSARIAMENTE vêm antes de se obter consciência sobre o absurdo moral de matar alguns animais para alimentar outros. Mesmo muitos vegetarianos não fizeram essa transição – alguns acham que é uma “violação da natureza” de certos animais, esquecendo que enclausurá-los também é.

Em suma, à medida que o número de veganos cresce, e eles se tornam mais visíveis, mais unidos, mais ativos e mais coerentes, fatalmente as mudanças virão, seja por meio do mercado, seja por meio das mudanças na legislação.

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